O grande e o pequeno.
Todo
caso de amor tem sempre um grande e um pequeno. […] O pequeno ama, o grande se
deixa amar. O grande fala, o pequeno ouve. O grande discorda, o pequeno
concorda. O pequeno teme, o grande ameaça. O grande se atrasa, o pequeno se
antecipa. O grande pede, ou nem precisa pedir, e o pequeno já está fazendo. Não
é uma questão de gênero. Existem homens pequenos e homens grandes, mulheres
grandes e mulheres pequenas. O temperamento e as circunstâncias influem, mas
não determinam. O grande pode ser o mais bem-sucedido dos dois ou não. O
pequeno pode ser o mais sensível, mas nem sempre é assim. Muitas vezes o grande
é mais esperto, mas existem pequenos espertíssimos. Depende do caso. […]
Mas como tudo pode acontecer, senão nada
disso ia ter graça, por alguma razão, geralmente à noite, imprevisivelmente, o
grande pode ficar pequeno, e o pequeno ficar grande de repente. Basta um
vacilo, um cair de tarde, um olhar mais assim, um furacão, uma inspiração, uma
imprudência. Quando isso acontece, é comum o pequeno ficar maior ainda, o que
torna o grande ainda menor. O ex-pequeno, logo promovido a grande, pode se
vingar do ex-grande, se o seu sofrimento tiver boa memória. Aí, coitado do novo
pequeno, vai se arrepender de cada não beijo, cada não telefonema, cada não
noite de insônia, cada não desespero, cada não entusiasmo, cada não carinho
inesperado, indispensável, inevitável, cada não todas as palavras apaixonadas
em qualquer língua do mundo. Ele vai se surpreender com a reviravolta, no
começo, mas vai se conformar com a sua nova condição de pequeno em seguida. E
então vai seguir, cuidadoso e desastrado, na quase inútil intenção de
conquistar o grande urgentemente.

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